segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Odair lembranças eternas


Odair morreu na construção de um prédio
que nunca foi terminado
no centro de Campinas
Dizem que foi infarto
Deixou duas filhas
No prédio, a mais nova pôs uma faixa
escrita em verde:
Odair lembranças eternas

Odair boa praça
Odair da banca da esquina
Morreu atropelado em frente a um prédio,
hoje abandonado, no centro de Campinas
Odair querido deixou todos
O presidente da associação de moradores
mandou colocar uma faixa no prédio:
Odair lembranças eternas

Odair se jogou do sexto andar
de um prédio abandonado
no centro de Campinas
Não deixou ninguém
Mas deixou uma faixa, escrita em verde,
que estava lá até antes de ontem
e me diz:
Odair lembranças eternas
A vida é isso, meu filho
Um dia está lá,
No outro não está mais

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Na Rua dos Pássaros

Não sei se o sabiá
ainda sabe assobiar
como falam por aí

Nem se andorinha
passou o dia à toa, à toa
lamentando-se

Ou se o beija-flor invadiu
mais de cem portas
ontem à noite (e saiu se gabando)

Mas sei que o bem-te-vi,
meu bem, te viu
pra estar cantando assim
até uma hora dessas

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Carta de amor ao meu caderno


Oh!, meu caderno amado,
perdoe-me.
Fui seduzido pelo teclado brilhante
do computador, eu confesso...
Mas que tolo fui!
Perdoe-me, perdoe-me!

Amo-te, meu bem, como quem odeia acordar cedo
e dar com o rosto numa janela iluminadíssima cheia de grades,
mas venera uma meia luz
em tuas folhas amareladas desnudas de pautas.
Desejo as curvas de tuas quinas
(como Roberto as da estrada de Santos)
e a firmeza do elástico que me abraça e te cerra!

Entre desenhos malfeitos e versos meio tortos,
vejo que não me esqueceste.
Mas que bobagem a minha!
Como bom caderno que és, tua firme capa preta
cuidará de meus pensamentos como teus, se eu de ti
também cuidar.
Quem precisa de becapes em nuvem quando te eternizas em terra?

Oh!, meu caderno querido,
se te causa algum alento citar-te Carlos,
dance um samba bravo, violento,
sobre o computador que agora apenas te suporta.
Vão-se os bytes, ficam teus riscos!

Pois amo-te como amar-te-ão meus bisnetos:
eis que encontrei o caderno de sonetos de minha bisavó.
Conversamos longamente, tomamos um café
e ele, além de a mim descrevê-la em histórias belíssimas,
encorajou-me a implorar teu perdão...

E aqui escrevo,
rogo
e jazo.

terça-feira, 8 de março de 2016

Essas gotas na janela


Umas gotas que caem nesse vidro
Não escorrem.
Nesse vidro das janelas
Que não abro há muito.

Essas gotas que me aparecem aqui
Fitam-me, caladas, o dia todo.

Envergonho-me.

Do outro lado, há um jardim feio,
Com umas árvores estranhas
E uma grama malcuidada.

Por isso, as gotas que caem do outro lado
Da janela
Olham-me.

Quando o inverno acabar
E as árvores criarem folhas
E a grama ganhar um verde viçoso,
Gotas, não me abandonem.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Sobre a tristeza


a Hamilton de Holanda


a tristeza de se ver só
a tristeza das luzes dos carros
passando
a tristeza dessa garrafa d'água vazia na mesinha
da poltrona da frente
a tristeza da fria luz de leitura do ônibus
que, sozinha, projeta umas sombras grandes demais
a tristeza de uns versos num caderno ainda bem vazio
a tristeza de um bandolim
a tristeza da janela gelada
que suporta pacientemente minha cabeça
aliviada
por se ver
triste

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Os pingos dos is

 
Essas demonstrações de afeto de estranhos me afetam um bocado.

Que nem naquele dia em que fui aos correios. Fui lá enviar uns documentos pra me inscrever em alguma coisa, nem lembro direito. Uma dessas coisas cheias de burocracias e firmas reconhecidas. Carregava na minha mão esquerda um envelope, amarelo queimado, chega pesado de documentos e com endereços escritos com minha dura letra de forma. Não consigo pensar em algo que represente melhor essa frieza do que a caneta Bic com que os escrevi. Daquelas de agência, com uma correntinha presa na ponta. Podia senti-la: “acabou? Agora me deixe em paz”.


Havia umas quatro pessoas na fila. A moça que estava logo à minha frente esperava, paciente. Na sua mão esquerda, levava um envelope branco não muito maior que uma foto normal, daquelas de quinze por dez centímetros, acho. Pela leveza, devia carregar uma carta, quem sabe um postal ou uma das tais fotos de quinze por dez.


O endereço estava escrito em inglês, primeiramente. Abaixo, em persa. Não que eu saiba diferenciar a língua persa da árabe, mas consegui ver que estava endereçada pra Teerã. Pesquisando depois na Internet, vi que no Irã falam persa, não árabe. Pois bem, voltando. Nossa, Teerã... daqui pra lá é chão.


Mas o que mais me chamou a atenção foram os pingos dos is. Não foi envelope, endereço, persa ou Teerã. Os pingos dos is. Que nem eram pingos, na verdade: eram corações. Vermelhos, destacando-se do azul do endereço. Feitos com um esmero que, tenho certeza, já aquecia o coração da pessoa que receberia aquilo.


Vez em quando, pergunto-me sobre o conteúdo da suposta carta, é verdade. Se uma carta de amor, de saudade, de amizade, de ansiedade ou disso tudo. Pergunto-me sobre quem iria receber, se é parente, paixão ou amigo ou amiga. Mas, de novo, os corações nos is, feitos com esmero. Não sei se eram só no endereço ou se dentro do envelope apareciam também. Não sei se já tinham um significado especial ou se eram uma surpresa. Se é que tinham algum propósito. De repente, era só um costume da moça, desenhar corações nos is.


Gosto de pensar que não. Que significavam algo especial. O quê, eu não sei. Algo só dessas duas pessoas. Que cruzaria continentes e faria um sorriso ser aberto antes mesmo da carta. Algo que molharia os olhos que os fitassem sem dizer nenhuma palavra. Que nem o rosto há muito não visto de quem a gente ama. Algo que diria “vê só? Eu não esqueci”.


Gosto de pensar que aquela moça na minha frente fez os tais corações nos is pensando na reação da outra pessoa, com o maior afeto do mundo. Tanto que aposto que a caneta vermelha que desenhou os corações ficou com uma alegria de dar inveja até na caneta Bic ranzinza da agência.