terça-feira, 21 de outubro de 2014

Vestida

Teu vestido vem,
A passos esvoaçantes,
Carregando teu espírito colorido
E tuas ideias floridas.

Vestes, bem sei, uma síntese de ti.


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

De Tardezinha

a Luisa Boccardo Burini                    

O cansaço dos olhos observa o movimento
Da estrada de terra lá fora.
Quantas solas já não pisaram por ali...

A força dos braços, já não tão segura de si,
- Já não tão cheia de energia -
Se apoia na janela que um dia ajudou a construir.

A maturidade das rugas ainda atura o Sol,
Que queima e castiga e maltrata
Como antigamente.

A simples resiliência do sorriso se alegra
Com o cinza multiplicado no céu,
Com a comida,
Com a panela amassada,
Com a lenha,
Com a casa,
Com os filhos crescidos,
Com as rugas que, sem ver,
Encostam na força de seu braço
E simplesmente sorri.






































Poesia inspirada no desenho em nanquim de Luisa Boccardo Burini

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Notas em SP

Me sinto vendo televisão o dia todo.
Todos os dias.
Não tenho o controle. Nunca tive.

Sento atrás de meus olhos
E me afogo em informações
Fatalmente empurradas goela abaixo.
Informações que serão úteis, dizem.

Algumas sim, claro.
Dessas, absorvo quase nada.
Não me convencem de outras.
Assisto mesmo assim.

Às vezes, durmo.
Meu cérebro trabalha mais quando durmo.

Acordo com o barulho da pessoa que fala.
Temo que me repreenda.
Mas que bobagem.
Ela não sabe quem eu sou.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Versos Secos

Acordo e tenho a boca seca.
Com algum esforço, cuspo versos no papel.
Versos ásperos e com um doce estranho.
Escassos.
Versos secos como esses, desde que só
Engulo olhares que tu não me lanças mais.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Tenho Sede

Traga-me um milhão de anos, tenho sede!
Uma sede absurda que nem o Velho Chico sacia.
Sede Buarque, sede César, sede Science.
Uma sede infindável de literamúsica brasileira.

Bebo Drummond, Rachel, Leminski!
Quanto mais bebo, mais sede tenho.
Ainda que me afogasse nos versos dos anjos,
Sem um copo de Vinícius, eu nada seria.

domingo, 24 de agosto de 2014

Entardecer

             A hora mais triste? O entardecer. Não sei explicar direito os porquês, mas acho tem algo a ver com o amarelo queimado do céu e de alguns postes apressados. Talvez seja a sugestão de que aquela mistura magnífica de azul, laranja, rosa e cores indescritíveis do horizonte será rapidamente substituída pelas luzes artificiais, vazias e melancólicas da iluminação pública.

            Sim, deve ser isso. Essa sensação de impotência diante de algo estonteante, mas efêmero e com minutos — até segundos — contados. Como... como o teu sorriso! Isso. Teu sorriso é um entardecer. Desequilibra, desnorteia e se vai sem explicação, deixando meras lembranças que tentam imitá-lo. Um prenúncio de caos.

            Sabe aquela música de Alceu? Tesoura do Desejo fala sobre um velho sonho bom que, fatalmente, viraria pesadelo. É isso, o teu sorriso. É o entardecer. É o que, de tão sublime, se faz triste.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Samba

Ouvi o samba como quem sai de casa.
Como quem sai à rua pra pensar,
A buscar uma identidade pra si,
E não volta mais.