domingo, 24 de agosto de 2014

Entardecer

             A hora mais triste? O entardecer. Não sei explicar direito os porquês, mas acho tem algo a ver com o amarelo queimado do céu e de alguns postes apressados. Talvez seja a sugestão de que aquela mistura magnífica de azul, laranja, rosa e cores indescritíveis do horizonte será rapidamente substituída pelas luzes artificiais, vazias e melancólicas da iluminação pública.

            Sim, deve ser isso. Essa sensação de impotência diante de algo estonteante, mas efêmero e com minutos — até segundos — contados. Como... como o teu sorriso! Isso. Teu sorriso é um entardecer. Desequilibra, desnorteia e se vai sem explicação, deixando meras lembranças que tentam imitá-lo. Um prenúncio de caos.

            Sabe aquela música de Alceu? Tesoura do Desejo fala sobre um velho sonho bom que, fatalmente, viraria pesadelo. É isso, o teu sorriso. É o entardecer. É o que, de tão sublime, se faz triste.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Samba

Ouvi o samba como quem sai de casa.
Como quem sai à rua pra pensar,
A buscar uma identidade pra si,
E não volta mais.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Esperar-te

Só o que me resta
É escrever que vou beijar-te,
Abraçar-te,
Amar-te;
E esperar que a vida
Imite a arte.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Ceará

Vivo respirando uma saudade seca,
Daquelas que chega ardem na venta.

E o Ceará é aquela chuvinha boa
Que deixa a paisagem bem verde
E o tempo bom pra se balançar numa rede.

terça-feira, 24 de junho de 2014

É São João!

E não se vê nenhuma fogueira por perto.
É São João e não se ouvem fogos,
Não se ouve a batida da zabumba
Nem o choro da sanfona.

Aliás, acho que não há choro é de ninguém.
Nem choro nem ninguém.
Tá um frio e um silêncio lá fora
Que eu vou te contar...

domingo, 8 de junho de 2014

Mudança

Ela achou aquela carta por acaso,
No meio de uma mudança.
Até pensou em reler, mas
Melhor não, deixa pra lá.

Tem quase certeza de que a jogou na mala
Pra reler algum dia, ou algo do tipo.
Ela perdeu a carta.
Por acaso ou pela sua velha mania
De não cuidar das coisas pelas quais se importa.

Perdeu a carta do mesmo jeito
Que o perdeu.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Eu de Você

Eu quero nossas bocas tão próximas
A ponto de ser impossível distinguir uma da outra,
Meus dentes dos teus, teus braços dos meus,
E o título do poema.