quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Meias Sujas

As meias sujas jogadas na entrada do quarto
Ilustram bem seu estado de espírito.
Ou, pelo menos, como ela gostaria que estivesse.

Se pudesse, deixaria seu amor ali também,
E não teria que lidar com aquele cheiro de angústia
Que se impregnara ao travesseiro
Até mais que ela própria.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Sobre Partidas e Canções de Saudade

Diz-se que quem vai embora parte.
E partir é o mais difícil de se ir embora.
É partir o próprio coração,
Deixar um pedaço e levar outro,
Um pouco mais sem graça,
Um pouco mais sem vida,
Ainda assim, coração o suficiente para doer.

Ao se partir, não há refúgio.
Não há quem culpe, não há quem volte.
Não há para quem implorar,
Em telefonemas desesperados
Durante madrugadas vazias.
Há apenas o espelho e o rádio.

Mas não há canções para serem ouvidas.
Não há canções porque não há o que dizer.
Quem partiu foi você
E o cantador lhe espera.
Quem se partiu foi você
E, no canto, a dor lhe espera.
Na dúvida, culpa-se o tu-lírico!
Já que o eu-lírico jamais faria nada disso
E não tem vocação para vilão de si próprio.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Volta Repentina


Saudade maior do mundo, eu deixo
Saudade maior ainda, eu levo
Rasgando a noite num tubo de aço
A mais de num sei nem quantos metros
De destino, terra tão distante
Um menino, antes grilo falante,
Se reserva no silêncio de um velho

Mas, Ceará, se avexe não, que eu volto
E terá de haver muito mais tempo
Nos teus braços, no teu calor, na tua noite,
No sopro materno do teu vento
Eu hei de voltar para o teu lado
Dançar teu maracatu arrastado
Pro tempo ter que passar mais lento.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Contato Visual

Eu juro que é sem querer
Quando devoro teu olhar
Com meus olhos famintos
De deslumbre sincero.

É que, essa situação
De perplexidade a cada vista,
Eles não viam há muito tempo.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Todas

És intertextualidade por inteiro.
Uma antologia de inspirações
Feita dos mais perfeitos trechos,
Todas elas juntas em Lenine.
Todas elas juntas em ti.

És originalidade por partes,
Ao passo que tens tudo teu.
Na mais perfeita ordem,
Na mais perfeita balbúrdia,
Na mais perfeita e cuidadosa fúria.
Na doce rede do toque dos teus dedos.
Um toque único num diálogo
De todas as musas.
Num monólogo de ti.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Maremotos


Devem ser esses teus olhos...
Machadianos, namoradores, firmes.
Sim, teus olhos é que causam
Ressaca, maresia e doçura.
Furam meu sono, invadem meus sonhos;
Dobram e quebram as ondas cerebrais.
Tento navegar nos teus cílios:
Um maremoto atrás do outro.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Qualquer Coisa

Eu não sei explicar tua boca.
Ela tem a tal qualquer coisa de dança
De que Vinícius falava.
E qualquer coisa de riso,
Qualquer coisa de poesia declamada.

É engraçado...
Sempre que você canta,
Me vem uma vontade enorme de te beijar.
O problema é que é quase impossível escolher
Entre o teu beijo e o teu canto.
Há aí qualquer coisa de dúvida.