terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Ensaio de Improviso Sobre o Amar


Sem certeza, sem reações previstas,
Sem a régua das consequências,
Sem as rédeas da consciência,
Sem nem mesmo pensar,
Sem o menor pesar,
Ame.

Ame um certo alguém,
Ame um incerto alguém.

Sem certeza de que é amor,
Sem certeza nem do que é amor.
Mas ame.


Gabriel Queiroz

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Pontos de Vista


De vez em quando abrimos os olhos
E queremos ver o que seremos.
De quando em vez arregalamos os olhos
E acabamos por ser o que não vemos.

E de repente nós temos olhos
Apenas pra ler o que escrevemos.
Repentinamente, só temos olhos
Pra perceber que não os temos.


Gabriel Queiroz

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Conversa


O que você quer?
Pode falar. O que você quer?
Quer que eu te ligue mais?
Quer que eu ligue menos?
Eu posso ir na sua casa e ajudar a desmontar
A árvore de natal. Já passa do dia 6.

Quer que eu cancele a sua assinatura de TV?
Quer que passe no drive-thru?
Com cebola ou sem?

Por que você não fala?
Sério, eu não sei o que você quer.
Não sei o que mais posso fazer.
Eu pinto o céu de laranja todas as tardes
Só porque é a sua cor preferida.

Ela sorriu e enxugou as lágrimas.


Gabriel Queiroz

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Maré

Areia na minha bermuda e você ria.
As ondas vindo, nos derrubando
E desfazendo a cômoda posição
De um abraço perfeitamente conexo.
E a gente ria.

O mar crescendo
E o nosso amor em maré alta.


Gabriel Queiroz

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Coitado


Ai de mim, morena,
Ai de mim.
Se o amor não for assim, morena,
Ai de mim.
E se ele murchar só um tiquim, pequena,
Ai de mim, ai de mim.
Se todo esse açúcar não der alfenim, que pena,
Ai de mim!
Se a rima não for do início ao fim,
Ai de mim, ai de mim.
E se eu quiser pôr um fim, morena?
Ai de mim...


Gabriel Queiroz

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Estacionárias


Só tens agora os carinhos do motor.

Os chuviscos vão estampando minha camisa meio abotoada,
Ilustrando as inúmeras lacunas que deixaste em mim.
O calçamento ainda está molhado
E todas as tinturas estão num tom mais escuro
Que o usual.

Vejo a iluminação pública apenas refletida no asfalto,
Que nem as paralelas de Belchior.
Amarelas, tudo é sépia
Na iluminação particular.

Dali, o Planetário mostra onde eu queria estar.
Entro no carro e não ligo o limpador do para-brisa.
Nenhuma alma viva ou morta.
Não é apenas o vidro que está turvo.
120 na Beira-Mar
E o mundo gira, gira...


Gabriel Queiroz

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Cólera Descolorida


Quando vi, você rasgava as cortinas,
Abria as janelas e quebrava as lâmpadas.
Dizia que era para a luz branca do Sol entrar,
Ensandecida.

Pro inferno, essas lâmpadas fluorescentes
De não sei quantas velas.

A noite é para se olhar as estrelas.
Que se visse apenas de dia,
Que o espelho servisse apenas de dia,
Você gritava,
Em meio à fúria da imagem monocromática
De si própria.


Gabriel Queiroz