quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A lâmpada e a luminária


Hoje fez um ano que a lâmpada do meu quarto queimou
Não sei se por preguiça ou desleixo, não a tirei nos primeiros dias
Por poesia, não a tirei nos outros muitos

Acho que me acostumei com a luz tímida da luminária
Tenho uma simpatia por ela, que fica ali, no canto da mesa.
Ah, porque ela é quietinha e não tenta tomar conta de tudo
Que nem a outra.
Meus olhos agradecem.
Minhas ideias preferem a luminária também,
Dizem que se sentem mais confortáveis ou algo assim.

Hoje me deu uma coisa, não sei porque.
Senti meio que uma obrigação de trocar a tal da lâmpada.
Nunca liguei pra isso,
Mas hoje me deu uma coisa.
Até comprei uma lâmpada nova.

Peguei um banco, coloquei no centro do quarto,
Há quanto tempo, lâmpada.
Tirei-a pela primeira vez desde que queimara.
Mas aconteceu alguma coisa
Que parte do bocal veio junta, grudada na rosca.
Complicado.

Meus olhos sorriram.
Minhas ideias dançaram.
A gente gosta bem mais da luminária, mesmo.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O primeiro pôr do sol


No primeiro pôr do sol
não teve pôr do sol
na verdade teve,
mas ninguém viu

No primeiro pôr do sol,
teve muita coisa
melhor e maior que
o primeiro pôr do sol

A verdade mesmo
é que o sol não quis
tomar a atenção
de nada nem de ninguém

Quando ele viu
seu riso, seu canto,
seus olhos e o
amor que nascia ali,
chamou umas nuvens
e deixou os dois à sós.

No primeiro pôr do sol
os dois se puseram em algo
muito melhor e maior
que qualquer pôr do sol.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Bocejos

Você me dá bocejos.
Muitos.
Aquela coisa que dizem que serve
pra dar mais oxigênio ao cérebro.
Aquela coisa que digo que serve
pra inspirar o máximo de ti.

Nas nossas conversas pela Internet,
mais que a tela fria e que o som distante,
o bocejo me aproxima de ti.
O bocejo pega.
Como um beijo, que você me dá
e eu retribuo,
ainda que não quisesse.

E ah!, como eu quero!

sexta-feira, 1 de maio de 2015

segunda-feira, 20 de abril de 2015

As coisas que tu me livra

As coisas que tu me escreve,
As coisas que tu me fala,
As coisas que tu me serve,
As coisas que tu me cala.

As coisas que tu me olha
Que chora, que enxuga e que lê
As coisas que tu me molha
As coisas que tu me vê

as coisas que tu me mostra
conhecem absurdos de mim!
as coisas que tu me prostra
beijam meus lábios à noite

as coisas que tu me bebe
aliviam minha garganta
como meio litro d'água
ao acordar numa ressaca braba

tu me versa coisas que
aos poucos me (des)fazem
e dão paz e significam e fluem e me tornam
verdadeiramente

livre

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Muro

hoje foi uma correria doida
no condomínio fechado
com suas armas de plástico

vai ver só!
me acertaram!
criança ri
dorme cansada
no condomínio fechado
uma correria doida
uma correria doida
na favela pacificada
dorme com medo
criança chora
acertaram ele!
vai ver só!

com suas armas de pânico

na favela pacificada
hoje foi uma correria doida

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Soneto livre de tudo — menos de corpo


as cadeiras na calçada
já com a palha dos assentos gasta
já mal se aguentando nas quatro pernas
descansam de tardezinha

as cadeiras na calçada suspiram
o jumento vai devagar
o cachorro vai devagar
a vida vai já não tão devagar

o danado do Sol
quando chega bem pertinho do horizonte
se apressa ávido pelo cochilo

mas as cadeiras na calçada, com os olhos
[bem compridos para o céu
suspiram, suspiram
ah!, quantos carnavais vividos nessa rua...