quarta-feira, 1 de abril de 2015

Soneto livre de tudo — menos de corpo


as cadeiras na calçada
já com a palha dos assentos gasta
já mal se aguentando nas quatro pernas
descansam de tardezinha

as cadeiras na calçada suspiram
o jumento vai devagar
o cachorro vai devagar
a vida vai já não tão devagar

o danado do Sol
quando chega bem pertinho do horizonte
se apressa ávido pelo cochilo

mas as cadeiras na calçada, com os olhos
[bem compridos para o céu
suspiram, suspiram
ah!, quantos carnavais vividos nessa rua...

terça-feira, 17 de março de 2015

Nota?

Tu me lembra
todas aquelas ideias que esqueci
todas aquelas coisas confusas
que penso e despenso e dispenso
e que fazem sentido só contigo
todos os poemas não escritos
os versos apressados
os sonhos teimosos que
somem com o abrir dos olhos
os meus, não os teus
teus olhos parecem anotar rapidamente
todos os pensamentos que me olham
e tua boca gentilmente
me beija todas as notas anotadas
pelos teus olhos que me beijam
com teu olhar
falante.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Tu


Tenho vontade de te conhecer por completo
vontade de conhecer sua família
até aquele primo nada a ver
conhecer o barulho da roçadeira que
te acorda domingo de manhã
xingar a roçadeira que te acorda domingo de manhã
xingar a desgramada da grama que a roçadeira roça
domingo de manhã
conhecer o pedacinho da cidade que você
consegue ver da sua janela, sacada, perdão
seus amigos todos, os chatos também
a casa onde você morou
seu café preferido
o bar onde você tava
quando me mandou aquela primeira mensagem
a mesa do bar em que você tava
quando me mandou aquela primeira mensagem
o garçom do bar em que você tava
quando me mandou aquela primeira mensagem
se duvidar, eu abro um bar com o mesmo nome
roubo a mesa e contrato o garçom do bar em que você tava
quando me mandou aquela primeira mensagem.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

o que eu queria te dizer

Suas palavras colorem meu
dia chuvoso
é bom pra ficar abraçado com
você
não sabe, mas já morro de
saudade
é uma coisa engraçada: quando a gente percebe,
já era
tempo de dizer tudo

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

As coisas que tu me escreve

Parecem me beijar.
Parecem pegar na minha mão
E me chamar pra um forró.

Quando dou fé, estou dançando só,
No meio do meu quarto.
Rio feito besta
E beijo tuas palavras de volta.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Sussurro

Queria te dizer absurdos
Difíceis de acreditar,
Mas verdadeiros,
Que estão em mim.

Queria te dizer disparates
Inimagináveis,
Como quem delira.
Como quem ama.

Queria te dizer
Qualquer coisa
Ao pé do ouvido.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Coisa Pouca

Achei que saudade não era nada demais,
Coisa pouca.

Só que tive um sonho,
Daqueles reais
Que secam a boca.

Acordo tonto,
Procurando por um gole de você.