sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Sonho, música e repetição


            Ela acordou procurando por ele. Sim, tinha sido um sonho, concluiu desanimada. Lembrava-se perfeitamente de sua voz, de seu sotaque, mas não do rosto ou de qualquer outra característica física. Talvez se tentasse mais... sem sucesso. Nem era uma voz bonita, mas a tinha encantado. Quis mergulhar de volta no sono, mas não o achava mais de jeito nenhum.

            No sonho, estava em um lugar qualquer, distraída. Quando dava por si, ouvia sua voz cantando a música preferida dela. E pelo jeito que cantava, era a dele também. Não vira de onde ele vinha ou para onde ia, mas fora completamente tomada pela música. Acordou não mais que de repente.

            Passou dias com aquilo na cabeça e, a todo o momento, colocava seus fones de ouvido e ouvia a canção. Cantarolava sozinha, com o volume nas alturas. Talvez, se não a ouvisse o tempo inteiro, tivesse cantado junto com ele quando passou ao lado dela. Em vez disso, a música apenas acabou e ela a pôs para repetir.


Gabriel Queiroz                          

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Silêncio Urbano


a Gustavo Isaias                                                                 


Minha companhia se fazia apenas
Pelo som de meus sapatos na calçada.
Lentos e pendulares, meus passos me seguiam.

A rua somente estava ali,
Com chiados e ruídos de sempre
Que, de tão sempre, camuflavam-se
No silêncio,
Como uma televisão que passa muito tempo
Em chuva-de-prata.

Lembrei-me de uma música
Que, pelos fones de ouvido, veio
E juntou-se a mim no infinito dali
E levou-me embora a outras paragens.
A paragens com mais poesia que ali.

Tão rápido como veio, foi-se.
Tal qual chão que se abre,
Fazendo o estômago subir
E uma quase angústia aparecer.

Contudo, nada mudara.
Eu apenas percebera aquele irritante som
De chuva-de-prata da rua
Que me incomodava como torneira
Mal fechada.

De fato, nada mudara.
Nem o som dos meus passos.
Nem mesmo o som da mesmice.


Gabriel Queiroz

domingo, 30 de setembro de 2012

Setembro


Quero ter teu colo
De novo
Quero ter teu abraço
Sem medo
Quero ter teu beijo
Tão meigo
Quero ter tua paz
Sossego

Quero ter assim
Sem mais nem menos
Sem motivo visível
Sem razão aparente

Quero ter-te, por fim
Aqui bem perto
E tudo tão certo
Por estares presente.

Gabriel Queiroz

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Diálogo I


É, naquela altura
O tempo já forrara meu coração
Com folhas de jornal baratas

Mas naquela altura
Nosso encontro foi uma tempestade
Jornal se rasga facilmente com água

Eu caí daquela altura
Quis te responder tudo isso
Mas o que soube dizer
Um mero 'estou bem, e você?'


Gabriel Queiroz

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Comédia


Lembra-se de quando seus cabelos deslizavam
Pelos meus dedos magros e tortuosos?
Lembra-se de como era engraçado?
De como tudo
Era engraçado?

Seus cachos leves e brilhantes
Passeavam por minhas inseguras mãos
E refletiam nossos dias
Ligeiros, completos, engraçados.

Lembra-se de como sentia cócegas
Quando eu acariciava sua nuca?
Você nem se mexe mais
E nem elogia o perfume dos lírios
Que lhe trago agora
Tão queridos até ontem.

Era tudo engraçado, lembra?
Talvez você ainda ache isso
E esteja rindo
De onde ninguém pode ver.
Pois sua boca esboça
Um sorriso, de alguma forma.

Ou talvez eu esteja imaginando tal sorriso
Sem forma nenhuma,
Enquanto meus dedos procuram consolo
Em seus cabelos
Inertes.


Gabriel Queiroz

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Soneto de Libertação


E foi-se o riso e foi-se o canto,
Foi-se também a vaidade.
Foi-se a foto que olhou-se tanto,
Foi-se a delirante verdade.

E foi-se a brisa e foi-se o vento,
A mais triste serenidade.
E foi-se o tão velho tormento,
Dormência da sinceridade.

E foi-se quando e foi-se lento,
Suave, dormiu ao relento,
Sem acordar uma cidade.

E, para o meu maior espanto,
Foi-se até o eterno pranto
Quando apagaste esta saudade.


Gabriel Queiroz

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Desconsolo na Pátria




Vamos, não cales...
A eleição está perdida.
A população está perdida.
Mas o voto não se perdeu.

A primeira gestão passou.
A segunda gestão passou.
A terceira gestão passou.
Mas as promessas continuam.

Perdeste o melhor emprego.
Não tentaste qualquer revolta.
Não possuis saúde, educação, segurança.
Mas tens um estádio.

Algumas pessoas públicas
em vida mansa, te golpearam.
Nunca, nunca são punidas.
Mas, e o pudor?

A (in)justiça não se resolve.
À sombra do plenário
murmuraste um protesto tímido
Mas virão outros?

Tudo somado, devias
precipitar-te – de vez – nas ruas.
Estás nu na urna, no pleito...
Grita, meu filho.

Gabriel Queiroz